A palavra “família” não é fixa, é polivalente; vai mudando constantemente ao longo das gerações variando de indivíduo para indivíduo estando sempre sujeitas a futuras alterações e evoluções de acordo com a época em que vivemos.
As famílias de há cinquenta anos atrás eram bastante diferentes das actuais. Ao pai sempre lhe foi atribuído um papel de “chefe de família” onde era este que tomava sempre a decisão final, era um símbolo de poder e autoritarismo. Era este que tinha o dever sustentar a família, trabalhando, enquantoque a mulher, submissa às suas decisões, ficava encarregue de outras tarefas. A função da mãe era de educadora dos filhos, esta tinha como objectivo evitar o abandono e a morte das crianças, cuidando das mesmas. Tinha acima de tudo uma função reprodutora e era o centro de gravidade da família dada a ausência da figura paternal.
As famílias eram, por norma, numerosas onde o filho mais velho era sempre privilegiado. O primogénito sempre foi o “eleito”- até nos dias que correm, em países monárquicos, o primeiro filho dos reis é o que será coroado como futuro rei.
As filhas tinham uma relação de “simbiose” com a mãe; esta ensinava-as a realizarem todo o tipo de actividades (cozinhar, limpar, coser, etc.) pois era esse o seu futuro também. A filha ou as filhas mais velhas faziam também o papel de mãe dos irmãos mais novos, cuidavam destes desde muito cedo, ajudando a mãe, estando a seu cargo imensa responsabilidade.
As famílias eram quase todas muito numerosas dada a escassez de informação e de contraceptivos disponíveis. As mulheres estavam constantemente grávidas, acabando por servir como contracepção natural. Cabia ao pai, figura de poder, reduzir/limitar o número de nascimentos.
Com o passar dos anos, foram surgindo então as famílias contemporâneas onde houve grandes revoluções na educação e costumes. Primeiramente, as mulheres começam a trabalhar fora de casa tal como os homens. As mulheres começam a ter menos tempo para ser mães a tempo inteiro e apostam na sua formação profissional e na sua autonomia, tal como os homens. Há então uma grande quebra de nascimentos. O novo baby boom deste século depara-se com a procriação assistida onde, surgem novos métodos de engravidar; mulheres inférteis podem agora ter filhos (e normalmente esses tratamentos estimulam a geração de mais do que uma só criança). Há também um número bastante inferior de mortes no parto, o que faz fomentar a natalidade. Há então alguns prós e contras q tanto beneficiam a natalidade como a prejudicam.
A mãe e o pai começam então a ter tarefas duplas. A mãe tem de conciliar as suas actividades, com o papel de mãe e o emprego. Tudo isto contribui para que o pai comece a estar mais presente na vida dos seus filhos, as tarefas são, então, mais distribuídas e não catalogadas como sendo só para a mãe ou só para o pai.
O divórcio também é um tema que deixa de ser tabu para ser visto como uma realidade frequente em muitos conjugues. Este acontecimento é mais um contributo para se dar uma aproximação no papel dos pais. Consequentemente, vai haver um crescimento das famílias monoparentais .
A questão da pluriparentalidade, que sempre existiu de diversas formas (tios, avós, amas, vizinhos, irmão mais velho, etc.) vai-se acentuar neste período devido à ocupação e falta de tempo dos pais.
Neste baby boom surge também o “fantasma da criança perfeita” onde o excessivo planeamento e ideais colocados na futura criança vão ser prejudiciais para a natalidade pois o número de nascimentos vai reduzir dado todos os tópicos necessários para se iniciar uma gravidez. A ecografia, a amniocentese, bem como a correcção de anomalias genéticas contribui para q os pais possam controlar tudo o q poderem acerca do q o futuro bebé se tornará.
A parentalidade nada tem a ver com um elo biológico. Não tem de ser necessariamente uma relação entre os pais e os filhos, mas sim a relação de um casal com a criança. As figuras parentais de uma criança são aquelas a que esta tem mais afecto, carinho, respeito e confiança; são aquelas pessoas que cuidam, educam e envolvem a criança num clima de amor e compreensão. É um conceito que nos permite construir laços sociais . Existem crianças que vivem com os seus pais biológicos mas não existe uma parentalidade entre eles. A comunicação entre estes pode simplesmente não existir, esse clima não proporciona uma relação de parentalidade entre os pais e os próprios filhos.
Muitas pessoas confundem conjugalidade, que é a relação entre os conjugues (casal) com parentalidade, que, como já vimos, nada tem de semelhante. A conjugalidade é para sempre pois, independentemente do que suceder à relação pais vs filho, estes irão ser sempre pais biológicos da criança. A figura parental masculina e/ou feminina não tem de ser obrigatoriamente pai e mãe.
A própria palavra, “Parentalidade”, não consta em dicionários de língua portuguesa, é um neologismo, é uma organização teórica.
A parentalidade ultrapassa masculino vs feminino, mãe vs pai; ou seja, já não é necessária uma relação de conjugalidade para poder haver parentalidade. As novas técnicas de procriação assistida (barrigas de aluguer , por exemplo). As mulheres começam a entrar em espaços e universos masculinos onde por vezes, não há espaço para uma relação entre um casal.
Passamos de uma geração pivot para a Geração Sandwich onde a desigualdade de géneros parece ter sofrido uma grande alteração, tendo diminuindo drasticamente. Havia um afastamento considerável da figura masculina mas isso tem vindo a ser alterado .
Com o divórcio a ser cada vez mais uma coisa normal, vão surgir novas possíveis figuras parentais na nossa sociedade que não se sabe, devido à sua precocidade, que futuramente poderão vir a ser bons modelos de parentalidade. Ainda não está estudada a relação entre crianças e madrastas/padrastos, haverá então uma difusão de parentalidade.
Na minha opinião todos podem exercer uma relação de parentalidade com a criança, independentemente das circunstâncias, os laços criados não têm de ser exclusivos de uma específica identidade. O que realmente interessa é a atmosfera à qual a criança está sujeita, pois isso irá determinar a sua visão relativamente à vida futura.
Agora pensemos, quem somos nós para nos opor ou destruir uma relação de parentalidade que muitas vezes é evidente?