quarta-feira, 23 de março de 2011

Livres ou Felizes?

 De um filósofo actual (sublinhados nossos)

Livres ou Felizes?

Quero ser franco contigo: viver numa sociedade livre e democrática é uma coisa muito, mas mesmo muito, complicada. No fundo, os gran­des totalitarismos do nosso século (comunismo, fascismo, nazismo e ou­tros que apareçam, se é que ainda não estão todos) são tentativas de sim­plificar por meio da força a complexidade das sociedades modernas: são enormes simplificações, simplificações criminosas que tentam regressar a uma ou outra forma de beatífica ordem hierárquica primordial, nos ter­mos da qual cada um estava no seu lugar e todos pertenciam à Terra Mãe ou ao Grande Todo Comum. O inimigo é sempre o mesmo: o indivíduo, egoísta e desenraizado, caprichoso, que se desprende da acolhedora uni­dade social (ou seja, daquilo a que um pensador bastante cruel, Friedrich Nietzsche, chamava «o calor do estábulo") e assume liberdades exces­sivas por sua conta própria. Os totalitarismos troçam sempre das liber­dades «formais ou burguesas» em vigor nos regimes mais abertos: ridi­cularizam-nas, demonstram a sua inoperância, consideram-nas simples enganos para tolos ... mas assim que podem acabam com elas! Sabem que apesar da sua aparente fragilidade e da sua frequente ineficácia, o unanimismo totalitário não pode coexistir com as liberdades políticas elementares: se as tolerar, elas, a prazo, põem fim à autoridade de tan­ques e polícias.
Bom, é lógico que os Estados totalitários pretendam esmagar as li­berdades individuais, uma vez que o próprio nome que os designa de­riva da palavra «todo», e por isso esses Estados não aceitam a ideia de partilharem o poder com cada um dos seus cidadãos. Mas os inimigos da liberdade nem sempre estão no exterior, por vezes é dentro dos pró­prios indivíduos que os encontramos. Um psicanalista com ambições de sociólogo, Erich Fromm, escreveu há quase meio século um livro inte­ressantíssimo cujo título é já significativo: O Medo à Liberdade. É esse o problema:'O cidadão assusta-se com a sua liberdade, com a variedade de opções e de tentações que se desdobram diante de si, com os erros que pode cometer e com as barbaridades que pode chegar a praticar... se quiser. -se como que a boiar num mar de dúvidas local, sem pontos de referência fixos, obrigado a escolher pessoalmente os seus valores, submetido ao esforço de examinar por si próprio o que é preciso fazer, sem que a tradição, os deuses ou a sabedoria dos chefes possa aliviar grandemente a sua tarefa. Mas, acima de tudo, o cidadão tem medo da liberdade dos outros. O sistema das liberdades caracteriza-se pelo facto de uma pessoa nunca poder estar completamente segura quanto ao que vai acontecer. A liberdade dos outros, eu sinto-a como ameaça, porque preferiria que eles fossem perfeitamente previsíveis, que se parecessem obrigatoriamente comigo e jamais pudessem agir contra os meus inte­resses. Se os outros forem livres, é evidente que poderão comportar-se melhor ou pior. Não seria preferível que tivessem que ser bons à força? Não correrei demasiados riscos permitindo a liberdade deles? Muitas pessoas renunciariam de bom grado à sua própria liberdade contanto que os outros também não gozassem dela: assim as coisas seriam a todo o momento como devem ser - e mais nada. A minha liberdade é peri­gosa, porque posso utilizá-la mal e prejudicar-me a mim mesmo; quanto à dos outros nem vale a pena falar, uma vez que podem usá-la para me fazerem mal a mim. Não será melhor pôr fim a tantas incertezas? Não penses que são sempre os governantes que querem acabar com as liber­dades ou castrá-las ao máximo: muitíssimas vezes são os cidadãos que solicitam a repressão, cansados de ser livres ou receosos da liberdade. Mas a verdade é que quando concedemos a um Estado a oportunidade de limitar as liberdades «para nosso bem», só raramente o Estado deixa de agarrar a ocasião. Certos políticos totalitários, como Adolf Hitler, che­garam ao poder por meio de eleições: como vês, isso significa que já aconteceu os cidadãos livres utilizarem a sua liberdade para acabarem com as liberdades e empregarem a maioria democrática para abolirem a democracia.
As liberdades públicas implicam responsabilidade: trata-se de uma noção a que já atribuímos a devida importância na Ética para Um Jo­vem, como espero que ainda tenhas presente. Ser responsável é ser-se capaz de responder pelo que se faz, assumindo-o como um acto próprio, e uma tal resposta tem pelo menos dois aspectos importantes. Primeiro, significa responder «fui eu» quando os outros querem saber quem levou a cabo as acções que foram a causa mais directa destes ou daqueles efei­tos (maus, bons, ou maus e bons ao mesmo tempo); segundo, sermos ca­pazes de dar as nossas razões quando nos perguntam porque fizemos es­tas ou aquelas acções relevantes. «Responder», não era preciso lembrar­-to, é qualquer coisa que tem a ver com «falar», com entrar em comu­nicação articulada com os outros. Numa democracia, a verdade das ac­ções com repercussão pública não pode ser exclusivamente detida pelo agente que as leva a cabo, mas abre-se a esse respeito um debate mais ou menos polémico com os restantes associados. Embora possamos acre­ditar na bondade das razões que nos movem, devemos dispor-nos a ovir as dos outros sem nos fecharmos obstinadamente nas nossas, pois o contrário só poderá levar ou à tragédia ou à loucura. Dom Quixote con­sidera-se a si próprio um cavaleiro andante, mas é óbvio que deveria ovir de vez em quando a opinião dos que o rodeiam e medir o impacte so­cial das suas discutíveis «façanhas». Se não o faz é porque está louco, ou seja, porque se tornou irresponsável. Contudo, assumirmos os nos­sos próprios actos e sermos capazes de os justificar perante os outros não implica que renunciemos sempre à nossa opinião para nos vergarmos perante o parecer da maioria. A pessoa responsável tem que estar tam­bém pronta a aceitar, depois de expor as suas razões sem ter conseguido convencer os restantes associados, o preço de reprovação ou marginali­zação da sua discordância. As palavras de Sócrates no diálogo platónico Críton, quando se nega a fugir da cadeia e prefere enfrentar a condena­ção à morte sem abdicar das suas ideias, constituem o símbolo clássico desta atitude de maturidade vica suprema.
Os irresponsáveis podem ser de muitos tipos. Há aqueles que não re­conhecem a autoria do que fizeram: «não fui eu, foram as circunstân­cias». Nunca fizeram nada, mas foram empurrados pelo sistema político e económico vigente, pela propaganda, pelo exemplo dos outros pela educação que lhes foi dada ou pela falta dela, por uma infância infeliz, por uma infância demasiado mimada, pelas ordens dos superiores, pelo costume estabelecido, por uma paio irresistível, pelo acaso, etc. E tam­bém pela ignorância: como não sabia que seriam estes os resultados da minha aão, não me considero responvel por eles. Nota que eu não digo que para compreendermos cabalmente as acções de uma pessoa não devamos ter em conta os seus antecedentes, as circunstâncias, etc. Mas uma coisa é termos isso em conta, outra é convertê-lo numa série de fatalidades que anulam qualquer possibilidade de um indivíduo dever responder pelos seus actos. Naturalmente, esta recusa por parte do indi­víduo da condição de «sujeito», que o transforma em mero objecto arrastado pelas circunstâncias, só costuma verificar-se quando as con­sequências do acto que os outros lhe imputam são pouco agradáveis; se, pelo contrário, nos pusermos à procura do responsável por certas acções para lhe darmos um prémio ou uma medalha, o objecto da nossa busca proclamará «fui eu» com o maior dos orgulhos. É pouco frequente ovirmos alguém dizer que não foi a sua pessoa mas apenas as circuns­tâncias ou o acaso que fizeram o acto heico ou a genial invenção que os outros lhe atribuem...
Outra forma de irresponsabilidade é o fanatismo. O fanático recusa­-se a qualquer tipo de explicações: prega a sua verdade sem condescen­der com mais argumentos. Como é ele quem incarna indubitavelmente o caminho recto, os que discutem a sua verdade só podem fazê-lo mo­vidos por baixas paixões ou sujos interesses, cegos talvez por algum demónio que os não deixa ver a luz. O fanático também se não tem por responsável diante dos seus concidadãos, mas apenas perante uma ins­tância superior e, à partida, inverificável (Deus, a História, o Povo ou qualquer outro termo maiusculado que tal): as cautelas e leis habituais não foram feitas para gente como ele, que tem uma missão transcendente a cumprir... Geralmente menos terrorista, mas em contrapartida muito mais extensa é a irresponsabilidade a que poderíamos chamar burocrá­tica. É característica das instituições administrativas e governamentais em que nunca ninguém dá a cara por seja o que for que se faça ou não se faça: a coisa compete sempre a outro, o papel veio do gabinete lá de cima, isto muda-se naquilo também negociado, foram os superiores que decidiram (mas nunca se sabe que superiores) ou os subordinados que perceberam mal (é verdade que de vez em quando lá rola a cabeça de al­guma insignificância, mas sempre para impedir que se procurem as verdadeiras responsabilidades mais alto). O estilo da irresponsabilidade burocrática caracteriza-se pelo facto de quase nunca ninguém se demitir aconteça o que acontecer: nem por causa da corrupção política, nem por causa da incompetência ministerial, nem por causa dos erros cras­sos que os cidadãos têm que pagar do seu bolso, nem por causa da ine­ficácia manifesta quando se trata de acabar com os males cuja remoção fora prometida. Como o governante se considera irresponsável, tenta que a trama das instituições o ajude a gozar de impunidade. Toda a denúcia de abusos, por fundamentada que seja, parece fazer parte de uma campanha mavola dos adversários políticos; quanto à indignação dos cidadãos comuns, expressa através dos meios de comunicação, aplica­-se-lhe o velho princípio segundo o qual «os cães ladram e a caravana passa... ». Este modelo de irresponsabilidade governativa tem o seu com­plemento na irresponsabilidade dos que consideram não ter que respon­der por coisa nenhuma pois é o governo que deve resolver tudo. Eis uma vez mais a mentalidade totalitária, que torna o Estado e os seus repre­sentantes um absoluto fora do qual só existe impotência! Na sociedade democrática, nós, cidadãos, podemos e devemos reivindicar o nosso di­reito (pressupondo este último, em certa medida, a nossa obrigação) de intervir, de colaborar, de vigiar, de auxiliar quando isso nos pareça ne­cessário. Há pessoas que em vez de lamentarem que os imigrantes não conheçam o nosso idioma se oferecem voluntariamente para o ensinar aos estrangeiros, sacrificando algumas horas de ócio; outras cooperam com o seu esforço ou o seu dinheiro com movimentos sociais (educati­vos, anti-racistas, assistenciais, etc.) ou com instituições não-governa­mentais - como a Amnistia Internacional, as associações de direitos humanos ou os Médicos sem Fonteiras - cuja acção é imprescindível para melhorarmos a actual sociedade civil. Quem nunca se sente solici­tado, na sua consciência democrática, a fazer o que acredita que deve ser feito não fica quite com o seu dever por lamentar com eloquência que também «os governos» não o façam. Mas sem tirar sombra de im­portância à responsabilidade individual, é justo reconhecermos a nossa co-responsabilidade social no não-impedimento de situações próximas de nós que verosimilmente acabarão em crimes ou desastres.
Sejamos claros: os irresponsáveis são inimigos viscerais da liberdade, tenham ou não consciência disso. Todo aquele que não assume resposabilidades o que rejeita, no fundo, são as liberdades públicas, ininteli­gíveis se as desvinculamos da obrigação que cada um de nós tem de responder por si próprio. A liberdade é autocontrolo: ou andamos com um polícia, um médico, um psicólogo, um mestre-escola e até mesmo um padre ao lado para eles nos dizerem o que devemos fazer em cada caso que se nos apresente ou assumimos as nossas decisões, sendo ca­pazes de dar a cara pelas consequências delas, para o bem como para o mal. Porque sermos livres implica que nos enganemos e até que nos pre­judiquemos ao usar a liberdade: se nunca nos pudesse acontecer nada de mau ou de desagradável pelo facto de sermos livres... não o seríamos. Bem vistas as coisas, as Luzes políticas que, a meados do século XVIII, deram origem à democracia moderna pressupõem - como no seu tempo indicava já o velho Immanuel Kant - que nós, seres humanos, saímos da menoridade política. Se somos adultos podemos organizar-nos como iguais perante a lei e ser livres; caso contrário, precisamos de um Super­-Paizinho que nos defenda de nós próprios, quer dizer, que restrinja, oriente e administre a nossa capacidade de agirmos livremente. É evi­dente que o lugar de Super-Paizinho tem um candidato que se apresenta voluntariamente e conta com todas as vazas para a conquista do título: já deves ter adivinhado que estou a referir-me ao Estado. A mania bu­rocrática de transformar o Estado em nosso pai em vez de fazermos dele o nosso conselho de administração (mania sustentada por todos os que olham para o Estado de maneira timorata, mimada e infantil, em vez de adulta e participativa) chama-se em termos correntes paternalismo. E tem um sucesso que nem imaginas!
Há dois tipos de irresponsáveis infantilóides: os que têm medo dos outros e os que têm medo de si próprios. Nos dois casos, a consequência final é a mesma: quantas mais proibições, mais seguros e contentes. Como os irresponsáveis de que estamos a falar consideram que o Estado é o seu Grande Pai, rezam-lhe à sua maneira pedindo: «não nos deixes cair em tentação». Porque todos os irresponsáveis, em vez de acreditarem na liberdade (que é uma coisa bonita mas muito comprometida), acre­ditam no mito da tentação irresistível. Quer dizer, acreditam que há cer­tas imagens, ou palavras, ou substâncias, ou conspirações, ou seja lá o que for, que nos seduzem de modo tão automático e envolvente que frente a elas não há defesa que se aguente pois o seu efeito é aniquilar em nós qualquer capacidade de decio. Vamos , como diria o outro: um homem não é de pau ... Assim, a única salvação é aparecer o paizi­nho Estado para proibir a tentação: quando deixa de haver tentação, deixa também de haver perigo, pensam os pobres tolos. Podes crer que são espíritos infantis os que assim raciocinam. 
 
Savater, F. (1993). Política para um Jovem. Lisboa: Editorial Presença.

Bandeira Nacional


Um dos símbolos nacionais.

Logo após a Revolução Republicana, em 5 de Outubro de 1910, a Bandeira da Monarquia Constitucional foi abolida, e o Estado promoveu um concurso de bandeiras para representar o novo governo. Como vencedores desse mesmo concurso Columbano Bordalo Pinheiro, João Chagas e Abel Botelho elaboraram a Bandeira Nacional.
Mesmo com duas revoluções que conduziram a outras tantas mudanças de regime (como é o caso do Estado Novo, e a 3ª República, conseguida após o 25 de Abril), os sucessivos governos republicanos nunca alteraram o desenho da bandeira. Quanto ao escudo português, é exibido desde 1143 na bandeira nacional, com diferentes formatos.

Relativamente à sua simbologia, a nível cromático: o verde está presente na bandeira por ser a cor da esperança e por estar ligada à revolta republicana de 31 de Janeiro de 1891 (durante o Estado Novo fazia-se crer que o verde representava as florestas de Portugal); o vermelho simboliza a coragem e o sangue dos portugueses mortos em combate.


Quanto aos símbolos presentes na bandeira temos:
-ESFERA ARMILAR: que representa o Império Colonial Português e as descobertas feitas por Portugal;

-5 QUINAS: simbolizam os 5 reis mouros que D. Afonso Henriques venceu na batalha de Ourique;

-5 PONTOS BRANCOS: representam as 5 chagas de Cristo;

-7 CASTELOS: alude às localidades fortificadas que D. Afonso Henriques conquistou aos Mouros.


terça-feira, 22 de março de 2011

"Sociedade Natural"?

Escreve Edmund Burke em  Defesa da Sociedade Natural, em 1756
O intento era demonstrar que, sem muito esforço, esses mesmos instrumentos que eram usados para a destruição da religião podem ser empregues com igual sucesso para a subversão do governo; e que esses argumentos capciosos podem ser usados contra essas coisas que mesmo quem duvide de tudo o resto nunca permitirá pôr em dúvida. Existe uma observação que, segundo creio, Isócrates faz numa das suas orações contra os sofistas, de acordo com a qual é mui­to mais fácil manter uma causa errada e sustentar opiniões paradoxais para a satisfação de um auditório vulgar do que estabelecer uma verdade incerta mediante argumentos sólidos e conclusivos. Quando os homens julgam que algo pode ser dito em defesa daquilo que, por princípio, pensam ser totalmente indefensável, passam a duvidar até da própria razão; abandonam-se a uma espécie de admração complacente; seguem o orador, encantados e fascnados por encontrar uma tão fértil colheita de raciocínios onde tudo parecia estéril e pouco prometedor. Este é o fic­tício terreno da filosofia. E muito frequentemente acontece que essas agradáveis impressões da imaginação subsistem e produzem os seus efeitos, mesmo depois do entendimento ter dado conta da sua natureza imaginária. Existe uma es­pécie de brilho nas falsidades engenhosas que deslumbra a imaginação, mas que não pertence nem se torna na apa­rência bria da verdade. […]


Burke. (2008). Defesa da sociedade natural. Lisboa: Círculo de Leitores.

John Milton e a liberdade de imprensa

 Escreve Milton e proclama este discurso em 1644 contra a censura que  o parlamento inglês tinha aprovado:

Pois a verdade é que os livros não são coisas absolutamente mortas, encerrando em si uma vida em potência que os torna tão activos quanto o espírito que os pro­duziu. Mais ainda, os livros conservam, como num frasco, o mais puro extracto e eficácia do intelecto vivo que os gerou. Sei que estão tão vivos e tão vigorosamente produtivos como os dentes daquele dragão da fábula e que, disse­minados aqui e ali, podem fazer surgir homens armados. Mas isto significa também que, se não se usar de cautela, matar um bom livro é quase o mesmo que matar uma pessoa. Quem mata um homem mata uma criatura racional feita à imagem de Deus; mas quem destrói um bom livro mata a própria razão, mata a imagem de Deus, como se esta estivesse nos olhos. Muitos homens são um peso para este mundo; um bom livro, porém, é a seiva preciosa de um espírito superior, embalsamado e deliberadamente pre­servado para uma existência que ultrapassa a vida. É verdade que nenhuma época pode devol­ver uma vida, o que nem sempre representará grande perda; e as revoluções do tempo não reparam muitas vezes a perda de uma verdade rejeitada, por falta da qual nações inteiras sofrem as piores consequências.
Deveríamos ter, por conseguinte, cuidado com a perseguição que movemos contra as obras vivas de homens públicos, com o modo como desperdiçamos essa experiência humana de vida preservada e armazenada nos livros, pois bem vemos que se pode cometer assim uma espécie de assassínio, por vezes um martírio, e, se o alargarmos a todas as obras impressas, um autêntico massacre - em que a execução não termina na chacina de uma vida elementar, mas atinge aquela quintessência etérea que é o sopro da própria razão, destruindo não apenas uma vida, mas uma imortalidade.
Milton, J. (2010). Aeropagítica. Lisboa: Público.

As coisas que nós não sabemos

Hoje em dia fala-se de crise. Até que ponto? Será que esta afecta todos os cidadãos portugueses? Está claro que não! Ora vejamos:
Luís Nazaré (ex-presidente da ANACOM) disse que bastava que privatizassem a RTP (dado que este é um canal financiado pelo Estado português) para não haver esta avalanche de cortes nas receitas e aumento de impostos.
Em vez disso, o governo vai cortar as indemnizações compensatórias à RTP, mas os consumidores de electricidade vão pagar mais 30% de taxa de audiovisual para financiar este canal público, o que significa que, ao invés dos portugueses pagarem 1,74 euros mensais de taxa de audiovisual, passarão, a partir de 2011, a pagar 2,25 euros.
Toda esta situação servirá para se puderem pagar os ordenados milionários dos funcionários da RTP:
Judite de Sousa: 15.000,00 EUR por mês x 14 meses

Catarina Furtado: 25.000,00 EUR por mês x 14 meses

Malato: 20.000,00 EUR mês x 14 meses

O escritor: 16.000,00 EUR por mês x 14 meses

O chefe de programação: 17.000,00 EUR por mês x 14 meses
E várias outras pessoas, sendo que SÓ estas que eu enumerei significam um peso total de 1 milhão e 303 mil euros!
Por outro lado, um casal que tenha um filho e ganhe, no seu conjunto, 800 euros por mês, é-lhes retirado o abono de família!
Queria apenas abrir mais uma vez os olhos a todos vocês: a crise só afecta OS DE BAIXO!

Liberdade de expressão e pensamento

Na sequência do que falámos na última aula, gostaria de falar um pouco sobre o tema: liberdade de expressão. Julgo que foi uma das razões principais pela qual a revolução de 25 de Abril valeu a pena, no sentido que se conquistou o direito a pensar e falar livremente. Julgo ser unânime considerar este como um dos direitos essenciais na vida cívica e política de todos os cidadãos. Remetendo para a história, a opressão sempre foi usada como arma pelos regimes mais autoritários para se manterem no poder, pelo medo, pelo terror; mas também porque muitas vezes as novas ideias, novas visões podem provocar danos sérios naqueles que se acostumam à cadeira do poder. Pensemos que há um medo por parte da liderança destes regimes pela inovação, e por aquilo que pode trazer a mudança, traduzindo-se na perda de soberania por parte destes. Relembro a famosa história de Galileu, que graças ao seu trabalho desenvolveu a teoria do heliocentrismo contra a palavra da Igreja, e graças à opressão a sua teoria foi negada perante o mundo. E porquê? Não porque achavam que ele não tinha crédito no que dizia, ou porque as suas teorias estivessem efectivamente erradas; mas porque aquilo que ele dizia ia contra o que a Igreja pregava. Ou seja, não por ser o Galileu Galilei a dizer, mas sim porque o que ele disse ia contra a poderosa instituição.
Em suma quero com este parágrafo dizer que penso que a opressão ao pensamento livre é na maioria dos casos a melhor arma para as instituições poderosas manterem a sua posição privilegiada.
Mas esta causa serve apenas o interesse de um conjunto de pessoas, e muitas vezes não a maioria, porque graças à decisão da Igreja, o mundo viveu enganado vários anos. A liberdade para o ser humano pensar, agir, criar, inovar é aquilo que nos proporciona avançar e progredir, não só a nível tecnológico, mas também na questão do conhecimento, permite-nos arranjar mais e melhores soluções para os nossos problemas enquanto humanidade e garante-nos a possibilidade de questionar aqueles que regem o mundo, para que haja menos abusos.
Contudo, eu penso que em Portugal passámos um pouco de um extremo para o outro. Houve sem dúvida um benefício enorme de liberdade de pensamento e de expressão, mas especialmente no caso da liberdade de expressão acredito que se começa a ultrapassar alguns limites.
A meu ver, deve haver um enorme respeito pela vida privada, que não sei em que pontos consta na Constituição, mas que não tem sido efectivamente respeitado. Muitas vezes as notícias que vemos na televisão e nos jornais interferem na vida particular das pessoas, publicando escutas telefónicas, revelando operações bancárias efectuadas, entre outros que na minha opinião, mesmo que a pessoa esteja envolvida num caso jurídico, não deve ser publicado, mas sim mantido dentro do círculo da polícia e tribunais.
É claro que muitas vezes se tratam de figuras públicas como o Primeiro-ministro, ou Presidentes de Câmaras; neste caso, acho que os respectivos arguidos devem dirigir-se ao país, prestar explicações, porque quando desempenham tais funções, as pessoas que os elegeram merecem-nas, uma só vez, e afastarem-se do poder provisoriamente durante esse período de tempo (investigação e julgamento).
Mas pior ainda que bisbilhotar a vida particular das pessoas é o ataque denunciado e propositado a certos grupos étnicos ou culturais. Assim como foi mostrado na 5ª-feira passada, (dia 18 ), onde várias caricaturas ridicularizavam grupos como os à pouco referidos. No primeiro caso, Maomé com a bomba na cabeça, é na minha opinião um abuso de liberdade de expressão. As pessoas podem pensar o que quiserem, mas devem sobretudo ter muito cuidado quando transmitem as suas opiniões para público, pois um simples desenho causou grandes problemas às embaixadas Dinamarquesas (corrijam-me se estiver enganado, penso que foi na Dinamarca), espalhadas pelo mundo árabe, como consequência do enorme insulto que foi colocado a circular pelo mundo. É que neste caso, foi um ataque à privacidade de inúmeras pessoas com uma fé em comum; que deve ser respeitada como as outras, (embora com algumas considerações e apelo ao não fanatismo, muitas vezes manifestado pelos fundamentalistas islâmicos que a meu ver são um grupo que não respeita os direitos humanos, e como tal, bastante criticável). A segunda imagem, do Papa com o preservativo no nariz, também me parece um abuso de liberdade, e mesmo falta de respeito pela entidade representada, estando mais ou menos enquadrada com os problemas da primeira.
No caso da terceira, penso que surge num contexto completamente diferente, portanto não a usarei como exemplo aqui neste texto. Na Alemanha Nazi, não havia liberdade de expressão, nem sequer de pensamento, portanto aquilo que foi apresentado não espelha os limites deste tema, mas sim um instrumento que o regime totalitário utilizou para toldar a mente das crianças na escola.
Quero portanto finalizar fazendo um apelo ao respeito pelos outros e pelo pensamento dos outros. Não estou a dizer que não se pode criticar ninguém, antes pelo contrário, pode e deve-se, mas em debate, respeitando o outro, e em conversação, mesmo em frente da opinião pública, pois aí, aqueles que são criticados podem responder por si, ao passo que estas caricaturas são autenticas bombas atómicas, em que a resposta só surge dias ou semanas depois, quando os efeitos da explosão já causaram estragos.

segunda-feira, 21 de março de 2011

O Princípio do dano

A tese principal defendida por Mill em Sobre a Liberdade é fácil de explicar, em traços gerais. Segundo Mill, toda a interferência (quer por parte do Estado, quer por parte de outros indivíduos) em assuntos que só dizem respeito ao próprio indivíduo (ou, como Mill por vezes lhes chama, self-regarding matters) é ilegítima e o ónus da prova estará, por isso, sempre do lado de quem quiser interferir em assuntos que só digam respeito ao próprio indivíduo (mesmo que se tenha em vista o seu bem). Outro modo de expressar a mesma ideia é dizer que só é legítimo interferir em assuntos que só ao próprio dizem respeito, sem a sua concordância expressa, por razões de autoprotecção - sendo esta a mais conhecida formulação daquele que ficou conhe­cido como «o princípio do dano».
É necessário fornecer alguns pormenores em relação à noção de assuntos que só ao próprio dizem respeito e em relação ao que constitui interferência. Os assuntos que só ao próprio dizem respeito são, por excelência, os que dizem respeito aos sentimen­tos e opiniões das pessoas, aos seus gostos e objectivos na vida, e à associação volun­tária de pessoas - que sejam maiores de idade e estejam em plena posse das suas fa­culdades mentais - para objectivos que não impliquem dano a outros. Interferir é forçar efectivamente uma pessoa a fazer algo contra a sua vontade; críticas e tentativas de persuadir ou exortar a pessoa a agir de outro modo não constituem geralmente inter­ferências (mas veremos mais abaixo um caso em que podem constituir interferências).
Mill aceita algumas excepções ao princípio do dano. Segundo Mill é legítimo in­terferir contra a vontade das pessoas caso estejamos a lidar com criaas, pessoas que não estejam em plena posse das faculdades mentais comuns (deficientes mentais, pessoas sob a influência de álcool ou drogas, etc.) ou sociedades bárbaras; caso seja necessário impor a realização de deveres sociais, como o dever de defender o país em caso de ataque; ou caso o indivíduo em questão não conheça algum facto que, caso o conhecesse, o levaria provavelmente a agir de outro modo. Para ilustrar este último caso, Mill dá o exemplo de uma pessoa que está numa ponte em risco de ruir - se não houver tempo para avisar a pessoa desse facto, é legítimo afastá-la da ponte, recorrendo à força, se necessário (mas se a pessoa estivesse ciente desse risco, e nós soubéssemos disso, seria ilegítimo afastá-la da ponte).
Deve-se avaliar com alguma cautela os comentários de Mill no primeiro capítulo sobre a legitimidade de exercer despoticamente o poder sobre sociedades bárbaras. O simples facto de uma sociedade ser retrógrada não significa que, segundo Mill, tenhamos o direi­to de interferir nela. Mill dá, no final do quarto capítulo, o exemplo da comunidade mór­mon, que considera retrógrada por permitir a poligamia, e afirma que não nos é permi­tido interferir, dado que tal sucede com a vontade expressa de todos os envolvidos. Só seria permitido interferir se a comunidade impedisse os membros insatisfeitos de se irem embora. Isto parece indicar que Mill consideraria que qualquer interferência nos assun­tos internos de um país seria legítima caso se tratasse de um regime totalitário (pois estes regimes procuram impedir as pessoas de sair do país). Dizer que uma interferência seria legítima, porém, não é a mesma coisa que dizer que seria boa ideia fazê-lo; é preciso não esquecer que Mill é um utilitarista, e que provavelmente se oporia a qualquer interferên­cia externa para derrubar um regime totalitário caso essa interferência não maximizasse a utilidade.
Pedro Madeira
Mill, J. S. (2010). Sobre a Liberdade. Lisboa: Público.

LIBERDADE DE OPINIÃO E LIBERDADE DE EXPRESSÃO

O segundo capítulo de Sobre a Liberdade pode ser lido independentemente do resto do livro e constitui provavelmente a mais poderosa defesa da liberdade de opinião e de expressão alguma vez feita. O princípio do dano apoia naturalmente a existên­cia de liberdade de opinião e de expressão, dado que tanto as opiniões individuais como a expressão de opiniões individuais constituem assuntos que só ao próprio dizem respeito; mas não é preciso aceitar o princípio do dano para se concordar com o argumento fundamental de Mill a favor da liberdade de opinião e de expressão.
 Em linhas gerais, o argumento é este: há três possibilidades: uma opinião pode ser totalmente verdadeira, parcialmente verdadeira, ou totalmente falsa. Se é totalmente verdadeira, ou parcialmente verdadeira - como é o caso mais frequente -, então proibi-la é um mal, porque impede as pessoas de tomar contacto com novas verda­des. Se é totalmente falsa, ainda assim é útil que as pessoas a conheçam, porque per­ceber as posições dos adversários é essencial para perceber melhor a nossa própria posição, e porque uma opinião que não é criticada passa a ser aceite acriticamente e torna-se um dogma morto, ainda que verdadeiro. E, independentemente de a opinião em questão ser verdadeira ou falsa, impedir a divulgação de uma doutrina é pressu­por infalibilidade - é estar a pressupor que os seres humanos nunca se enganam, o que é claramente falso. Há uma subtileza na posição de Mill que é importante perceber: quando critica os que parecem pressupor que são infaveis, Mill não está a partir do princípio de que todas as nossas crenças podem ser falsas em conjunto; está apenas a partir do princípio mais fraco de que, tanto quanto sabemos, qualquer uma das nossas crenças, tomada individualmente, pode ser falsa.
Uma objecção a este argumento seria dizer que a verdade de uma opinião e inde­pendente da sua utilidade: que pode ser útil impor certas creas, mesmo que não se tenha a certeza de que sejam verdadeiras - isso implicaria que se poderia res­tringir a liberdade de opinião e de expressão. Mill antecipa esta objecção e dá dois contra-argumentos. Em primeiro lugar, é altamente duvidoso que, na prática, a util­idade de uma opinião possa ser avaliada independentemente da sua verdade ou fal­sidade (como certa vez ouvi dizer: quem tem a verdade é que faz os canhões; o é quem tem os canhões que faz a verdade). Em segundo lugar - e este é o ponto fundamental - os seres humanos são tão falíveis a determinar a utilidade de uma opinião como a sua verdade. Proibir que se expressasse determinada opinião que alguns considerassem nociva para o bem-estar da sociedade seria estar novamente a pressupor a infalibilidade dos seres humanos.
Mill reconhece, no entanto, que há um tipo de caso em que se pode restringir legitimamente a liberdade de expressão: quando expressar determinada opinião constitui uma incitação ilegítima à violência. No início do terceiro capítulo, Mill diz que certas opiniões, como a opinião de que a propriedade privada é um roubo, ou que os comerciantes de trigo fazem os pobres passar fome, devem poder ser livremente divulgadas na imprensa - mas não seria permissível usá-las como palavras de or­dem incendiárias perante pessoas que se estivessem a manifestar em frente à casa de um comerciante de trigo, pois tal constituiria uma incitação iletima à violência

Pedro Madeira
Mill, J. S. (2010). Sobre a Liberdade. Lisboa: Público.

terça-feira, 8 de março de 2011

Um novo nível de indecência...


Recentemente saiu uma notícia relacionada com os professores e a avaliação destes, que rapidamente se transformou num escândalo social e laboral. Um professor foi demitido do cargo de coordenador da Equipa de Apoio às Escolas por ter contestado a avaliação dos docentes!!
O Ministério da Educação, como é hábito nesta e noutras instituições governamentais, rapidamente negou a responsabilidade pelo acto, transmitindo-a para a Direcção Regional de Educação do Centro (DREC). O docente em causa era o coordenador da Equipa de Apoio às Escolas de Coimbra, e foi “afastado”, segundo as palavras da DREC, após ter assinado um documento que circulava na sua escola, contra o actual modelo de avaliação dos professores. Este professor ocupava o cargo desde de 2005 e por ter manifestado o seu desagrado contra uma medida do governo, foi “afastado” do cargo? Onde está o discernimento, a moral do governo? Será que se perderam, como alguns ficheiros do caso Face Oculta? Simplesmente vergonhoso.
O Ministério, em sua defesa, afirmou que todas as pessoas nesses cargos têm o dever de lealdade! Será que o mundo mudou de ontem para hoje e eu não reparei? Porque parece-me que o Ministério está a tentar afirmar, por outras palavras, que quem se encontra em certos cargos não possui o direito a manifestar o seu desagrado e lhe é recusada a liberdade de expressão?
Como pode vir o Ministério argumentar a lealdade, quando pretende realizar fortes cortes na educação, o que só piora a situação dos docentes, mas mais importante ainda, piora a situação dos alunos. Neste caso onde se encontra a lealdade do Ministérios e dos seus representantes para com a nação e os alunos do país, que merecem a melhor educação possível? Realmente na situação em que estamos, crise económica, só faltava juntar uma crise de valores, de decência, uma crise onde se esquecem os direitos e liberdades adquiridas por cada um.

sábado, 5 de março de 2011

Política e Ambiente

Cada vez mais se discute a questão do aquecimento global e as alterações que irá provocar no quotidiano das pessoas. Com os problemas que têm surgido com a assinatura de tratados ou o não cumprimento destes, leva a pensar que afinal, política e ambiente parecem conceitos opostos. Mas eu acredito que não. A política é a única forma de implementar medidas sérias e rigorosas no controlo da poluição, e cada país deve adoptá-las em seu benefício.

Existe, por exemplo, o tão falado Protocolo de Quioto, no qual apenas dois países, os EUA e a China, não assinaram. Mas na prática o que mudou? Os países continuam com níveis de poluição altíssimos! E é obvio que a China, um país que em breve se irá tornar a grande potência mundial, não quer abrandar os níveis de produção em prol do ambiente. Não sei se recordam dos Jogos Olímpicos de Pequim, onde as pessoas andam com guarda-chuvas, tal é o nível de poluição, que nem as deixa ver o céu.

Mas nem tudo é mau. A Itália, que toma medidas menos boas, parece agora que tomou uma decisão certa, acabou com os sacos de plástico. As pessoas vão ter de recorrer a sacos de papel, ou então às antigas alcofas com rodinhas. Não é vergonha nenhuma voltar a esses tempos, os sacos de plástico são feitos de derivados de petróleo e são responsáveis por grande parte da poluição de resíduos sólidos, que se verifica, por exemplo, nas praias, e levam imenso tempo a desaparecer.

É inevitável ligarmos o aquecimento global defendido por Al Gore às catástrofes naturais que são, cada vez mais, recorrentes no mundo. Assistimos às cheias no Brasil, aos incêndios e cheias na Austrália, ao frio ou ao calor extremos. Prevê-se que o Alentejo seja desértico daqui a uns anos, já que os climas têm tendência a ir em direcção às zonas polares, que tende a desaparecer. Quem é que não sente já no verão os contrastes de temperatura associados ao deserto? Com dias quentíssimos e noites cada vez mais frias.

Felizmente Portugal não é dos países mais poluentes, já que tem uma indústria pouco significativa. Embora isso afecte não só os países poluentes, mas como todos os outros. Mas os países desenvolvidos, ou em vias de desenvolvimento que poluem e não respeitam praticas ambientais, para quê esse esforço em vão, se um dia podem ficar sem planeta? E aí será mais importante a economia ou um mundo sustentável?

Vejam o vídeo difundido pela Greenpeace, acerca das alterações climáticas: http://www.youtube.com/watch?v=zVu9eawb1QY .

sexta-feira, 4 de março de 2011

Integração Social

A integração social passa pela complementaridade entre as actividades e as funções de determinada instituição. Apesar de a integração social ser também conhecida por ser unificadora, não apaga as diferenças existentes entre os cidadãos de determinada cultura, pois também como se sabe as diferenças entre as sociedades são bastante produtivas.
Devido às características de cada cultura, todos os homens têm diferentes formas de agir perante determinadas situações. Por este facto, a integração social não se realiza de forma fácil nem de modo algum é aceite de ânimo leve por todos os cidadãos.
Vou expor-vos agora várias situações:
Quando nos deparamos na rua com um deficiente motor, procuramos ajudá-lo, mas por um lado sentimo-nos retraídos porque este pode aceitar ou então rejeitar a nossa ajuda. Ao verifica-mos as condições impostas pela sociedade a este individuo reparamos que infelizmente ele está a mercê de si mesmo e das ajudas comunitárias que nunca são suficientes. Os espaços continuam inadaptados e mais tarde ou mais cedo esse individuo irá deparar-se com obstáculos que não poderá ultrapassar, bem como com uma profunda solidão.
Como exemplo temos também os imigrantes. Pelo facto de serem pessoas com menos posses monetárias, são diariamente menosprezados pelos residentes. São diferentes é verdade, mas não são as diferenças que caracterizam as culturas e que desenvolvem o todo Uno que somos e que é o Mundo? Não é de todo fácil responder a esta pergunta, pois tal como sabemos, fenómenos como a xenofobia e o racismo são uma constante na actualidade e na sociedade a que pertencemos.
Com todos os progressos desenvolvidos pela humanidade, não seria de esperar tal comportamento embora este seja o “eleito” pela maioria da população. Generalizar e ter como exemplo um caso de um determinado imigrante em Portugal é um exemplo de racismo, visto que tal como os português que não são todos iguais, é de esperar que os imigrantes também não o sejam. É importante referir, que muitos destes imigrantes trabalham e têm grande parte dos empregos que os portugueses rejeitam; estes indivíduos são também usados como objectos e explorados pelos patrões que sem dó e piedade os obrigam a trabalhar, em troca de um tecto e de documentos (i)legais.